O terceiro trimestre de 2026 deve trazer resultados operacionais distintos entre as construtoras brasileiras, em meio ao endurecimento das condições de crédito da Caixa Econômica Federal (CEF), à elevação dos cancelamentos de vendas e aos efeitos da greve de 20 dias do banco em setembro. Na avaliação do Safra, apesar das dificuldades enfrentadas pelo segmento de habitação popular, a recente desvalorização das ações abriu oportunidades de investimento, especialmente em Cury e Tenda, que seguem com recomendação de outperform (compra).

Em relatório sobre o setor, os analistas Rafael Rehder e Olavo Fleming destacam que a restrição ao crédito imobiliário pode pressionar o ritmo de comercialização dos imóveis e as margens das construtoras. Ao mesmo tempo, os atrasos nas transferências de unidades prejudicam a geração de caixa, embora parte desses efeitos seja temporária e possa ser revertida nos trimestres seguintes.

A Cury apresentou resultados ligeiramente acima das expectativas do banco, enquanto a Tenda ficou aquém das projeções. A MRV&Co surpreendeu positivamente nas vendas, mas continua enfrentando desafios relacionados ao endividamento. Já a Moura Dubeux registrou desempenho um pouco inferior ao esperado, apesar do volume expressivo de lançamentos.

Crédito pressiona vendas

O aperto nas políticas de financiamento da Caixa foi um dos principais fatores de atenção no trimestre. A instituição financeira restringiu as condições de concessão de crédito, inclusive para modalidades de financiamento concedidas pelas construtoras após a entrega das chaves. As mudanças contribuíram para elevar os cancelamentos e dificultar a conversão de contratos em vendas efetivas.

Na Tenda, os cancelamentos alcançaram 19,5% das vendas brutas, enquanto as vendas líquidas somaram R$ 1,3 bilhão, resultado 9% inferior à estimativa do Safra. A companhia também encerrou o período com menor volume de transferências, o que pode limitar a geração de caixa do trimestre.

O banco ressalta que as novas regras da Caixa podem melhorar a qualidade dos ativos no longo prazo, mas também reduzir o ritmo das vendas e pressionar as margens. A Tenda ainda possui uma carteira de aproximadamente R$ 2,2 bilhões em recebíveis de financiamentos pós-chaves, equivalente a cerca de 36% dos recebíveis brutos totais. O aumento do endividamento das famílias e a deterioração da qualidade do crédito podem exigir provisões adicionais.

Apesar dos riscos, o Safra considera que boa parte das preocupações já foi incorporada à queda recente das ações. A instituição vê o negócio principal da Tenda em ritmo forte e avalia que a companhia está negociada a um múltiplo preço/lucro de apenas 4,6 vezes o lucro projetado para o fim de 2027.

Cury supera projeções

A Cury foi o destaque positivo do relatório. A construtora registrou vendas líquidas de R$ 1,80 bilhão, crescimento de 11% em relação ao mesmo período de 2025 e resultado 6% superior à estimativa do Safra. A velocidade de vendas sobre a oferta chegou a 39,7%, indicando que a empresa manteve um ritmo comercial sólido mesmo diante das dificuldades de financiamento.

Outro ponto favorável foi a geração de caixa de R$ 254 milhões, valor 13% acima da projeção dos analistas. Segundo o banco, o resultado poderia ter alcançado aproximadamente R$ 280 milhões caso não houvesse a greve da Caixa.

Para o Safra, a combinação de vendas resilientes e geração robusta de caixa pode favorecer distribuições expressivas de dividendos. O banco também considera que a recente queda das ações superou os riscos de deterioração dos resultados e reiterou a recomendação de outperform (compra) para CURY3.

O preço-alvo foi mantido em R$ 45, ante cotação de referência de R$ 31,48 no relatório, o que representa potencial de valorização de 43%. A ação é negociada a 6,8 vezes o lucro projetado, e o Safra estima um dividend yield adicional de aproximadamente 16% até o fim de 2027.

MRV surpreende nas vendas

A MRV&Co também apresentou resultados operacionais acima das expectativas. As vendas líquidas de sua operação de incorporação alcançaram R$ 3 bilhões, alta de 11% na comparação trimestral e de 24% em relação ao terceiro trimestre de 2025. O volume ficou 11% acima da estimativa do Safra.

A velocidade de vendas sobre a oferta subiu para 25,1%, superando em 3,4 pontos percentuais a projeção do banco. A companhia ainda registrou geração de caixa consolidada de R$ 456 milhões, com contribuição relevante da Resia, operação imobiliária nos Estados Unidos, beneficiada pela venda de ativos.

Na operação brasileira de incorporação, a geração recorrente de caixa chegou a R$ 78 milhões quando considerados os cerca de R$ 80 milhões em transferências adiadas para o quarto trimestre por causa da paralisação da Caixa.

Apesar dos números positivos, o Safra manteve recomendação neutra para MRVE3. A instituição avalia que a empresa precisa avançar de maneira mais consistente na redução do endividamento para melhorar a previsibilidade dos resultados. Na visão dos analistas, concorrentes com menos obstáculos operacionais oferecem oportunidades mais interessantes após a queda recente do setor.

O preço-alvo da ação é de R$ 7, ante cotação de referência de R$ 6,35, indicando potencial de valorização de 10%.

Moura Dubeux enfrenta vendas mais fracas

A Moura Dubeux apresentou resultados ligeiramente abaixo das expectativas, apesar do volume expressivo de lançamentos. A companhia lançou oito empreendimentos, com PSV líquido de R$ 1,55 bilhão, alta de 53% em relação ao trimestre anterior e de 16% na comparação anual.

As vendas líquidas, entretanto, somaram R$ 841 milhões, queda de 17% no trimestre e de 22% em 12 meses. A concentração dos lançamentos na segunda metade de setembro limitou o tempo disponível para comercialização dos imóveis, contribuindo para uma velocidade de vendas sobre a oferta de 15,3%.

A empresa também registrou consumo de caixa de R$ 170 milhões. Desse total, R$ 97 milhões foram destinados à aquisição de um terreno dos Correios em Salvador. Excluído esse desembolso, o consumo recorrente teria sido de aproximadamente R$ 73 milhões.

Mesmo com a desaceleração das vendas, o Safra mantém uma avaliação favorável para a companhia. O banco destaca que a Moura Dubeux continua apresentando o menor nível de estoque entre as construtoras listadas voltadas aos segmentos de média e alta renda.

A diversificação dos lançamentos e o aumento da exposição à habitação de baixa renda também são considerados fatores positivos. Com a perspectiva de um possível ciclo de redução dos juros, o Safra reiterou a recomendação de outperform (compra) para MDNE3, com preço-alvo de R$ 37, ante cotação de R$ 30,22, o que representa potencial de valorização de 22%. A ação é negociada a 1,2 vez o valor patrimonial projetado para 2026, com ROE (Return on Equity) estimado em 30%.

Recomendações do Safra

O relatório mostra que, apesar das dificuldades comuns relacionadas ao crédito imobiliário, as diferenças operacionais entre as construtoras são relevantes para a seleção de ações. A Cury se destaca pela combinação de vendas consistentes e geração de caixa, enquanto a Tenda oferece uma avaliação considerada atrativa pelo banco, apesar dos riscos relacionados aos cancelamentos e aos recebíveis.

A MRV apresenta recuperação comercial, mas ainda precisa demonstrar avanços mais expressivos na desalavancagem. Já a Moura Dubeux mantém uma posição favorável em termos de estoque e diversificação, embora o desempenho das vendas tenha decepcionado no trimestre.

AçãoRecomendaçãoPreço-alvoPotencial
Cury (CURY3)outperform (compra)R$ 45,0043%
Tenda (TEND3)outperform (compra)R$ 46,0052%
MRV (MRVE3)neutroR$ 7,0010%
Moura Dubeux (MDNE3)outperform (compra)R$ 37,0022%

Os preços-alvo e os potenciais de valorização correspondem às referências apresentadas pelo Safra no relatório.

A avaliação do banco é que a pressão sobre o setor não elimina as oportunidades na Bolsa. O desafio, agora, é distinguir as empresas capazes de sustentar vendas, proteger margens e gerar caixa daquelas que ainda precisam superar obstáculos financeiros e operacionais. Nesse cenário, as condições de crédito da Caixa e a evolução do endividamento das famílias devem continuar entre os principais fatores para acompanhar o desempenho das construtoras nos próximos trimestres.

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