O Bitcoin perdeu força ao longo da semana, pressionado pela retirada de recursos dos fundos negociados em bolsa (ETFs), pela liquidação de posições alavancadas e pela incerteza em torno dos juros nos Estados Unidos. Em relatório divulgado em 9 de outubro, o banco Inter destaca que a combinação desses fatores levou o mercado de criptomoedas a abandonar o otimismo das semanas anteriores e entrar em uma fase de maior cautela. O índice de medo e ganância recuou de 71 para 57 pontos, passando da zona de ganância para a faixa neutra.
A mudança de humor ocorreu em paralelo à desvalorização do Bitcoin, que começou a semana próximo de US$ 86 mil, tocou US$ 80,4 mil na quinta-feira e operava ao redor de US$ 82 mil na sexta-feira. Mais do que a correção das cotações, o movimento chama a atenção pela deterioração dos fluxos de capital, especialmente nos ETFs à vista, que vinham sustentando parte importante da demanda institucional pelo ativo.
Saída de capital pressiona
Os ETFs de Bitcoin registraram saídas líquidas de US$ 484,9 milhões na quarta-feira e de outros US$ 244,1 milhões na quinta-feira, acumulando aproximadamente US$ 729 milhões em retiradas em apenas dois dias. Até quinta-feira, o saldo semanal estava negativo em cerca de US$ 700 milhões. Com isso, outubro passou a registrar saídas líquidas de aproximadamente US$ 410 milhões, em contraste com setembro, quando os fundos atraíram cerca de US$ 3 bilhões.
A reversão representa um sinal de alerta para o mercado porque reduz uma das fontes relevantes de demanda pelo Bitcoin. Quando os investidores retiram recursos dos ETFs, o movimento pode refletir uma postura mais defensiva diante da volatilidade e das perspectivas para a economia americana. Se as saídas persistirem, a ausência de novos compradores poderá dificultar uma recuperação consistente dos preços.
A pressão foi amplificada pelo mercado de derivativos. Segundo o Inter, as liquidações forçadas de posições alavancadas somaram aproximadamente US$ 1,2 bilhão na quinta-feira, dos quais cerca de US$ 940 milhões correspondiam a apostas na alta do Bitcoin e de outros ativos. Quando os preços recuam, posições que não conseguem sustentar as exigências de margem são encerradas automaticamente pelas corretoras, gerando vendas adicionais e acelerando a queda.
Esse mecanismo ajuda a explicar a velocidade do movimento até a região de US$ 80,4 mil. A redução da alavancagem, por outro lado, pode diminuir a vulnerabilidade a novas liquidações em cadeia. Isso não significa, contudo, que o mercado esteja pronto para retomar a trajetória de alta: a recuperação dependerá, entre outros fatores, da volta da demanda e da estabilização dos fluxos dos ETFs.
Juros e petróleo no radar
O cenário macroeconômico também limita o espaço para uma recuperação mais firme. Os pedidos iniciais de seguro-desemprego nos Estados Unidos ficaram em 197 mil, abaixo das 200 mil solicitações esperadas e pela quarta semana consecutiva abaixo desse patamar. Ao mesmo tempo, os pedidos continuados subiram levemente, para aproximadamente 1,72 milhão.
Em conjunto com a criação de apenas 29 mil vagas de trabalho indicada pelo payroll da semana anterior, os números apontam para um mercado de trabalho que perde dinamismo, mas ainda não apresenta sinais inequívocos de deterioração acelerada. Para o Federal Reserve (Fed), banco central americano, essa combinação reduz a pressão para flexibilizar a política monetária e mantém aberta a possibilidade de juros elevados por mais tempo.
A ata da reunião de setembro reforçou essa interpretação. A maioria dos dirigentes considera provável uma nova elevação dos juros até o fim do ano, diante de riscos inflacionários inclinados para cima. Embora a possibilidade de aumento já na reunião de 28 de outubro estivesse em torno de 20%, segundo o relatório, a probabilidade de pelo menos uma alta até dezembro permanecia acima de dois terços.
Para o Bitcoin, a perspectiva de juros mais altos é desfavorável porque aumenta a atratividade relativa de aplicações tradicionais e pode reduzir a disposição dos investidores para assumir riscos. O impacto, entretanto, não depende apenas das decisões do Fed, mas também da trajetória da inflação e das expectativas sobre os próximos passos da política monetária.
Nesse contexto, a divulgação do índice de preços ao consumidor (CPI) de setembro, prevista para 14 de outubro, ganha importância. O dado será publicado duas semanas antes da reunião do Fed e poderá ajudar a esclarecer se a pressão inflacionária justifica uma postura mais restritiva. Uma inflação abaixo do esperado poderia aliviar os mercados, enquanto uma leitura mais forte tenderia a reforçar a cautela.
O petróleo acrescenta outro fator de risco. As negociações entre Estados Unidos e Irã continuam sem uma solução definitiva, enquanto o tráfego de petroleiros no Estreito de Ormuz permanece reduzido e os ataques a embarcações na região persistem. Com o Brent acima de US$ 100 por barril, a possibilidade de manutenção da pressão sobre os preços da energia mantém aceso o alerta inflacionário.
Embora a declaração de Donald Trump de que os Estados Unidos não atacariam o Irã antes das eleições legislativas de 3 de novembro tenha reduzido o risco de uma escalada militar imediata, a trégua diplomática permanece condicionada à evolução das negociações. Uma reabertura efetiva do Estreito de Ormuz poderia aliviar o petróleo e, consequentemente, as expectativas de inflação, criando condições mais favoráveis aos ativos de risco, incluindo as criptomoedas.
Regulação avança gradualmente
Na frente regulatória, a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos Estados Unidos (CFTC) apresentou propostas para estabelecer regras específicas para plataformas que oferecem negociação alavancada de criptoativos ao varejo. As medidas incluem exigências de comprovação de reservas e mecanismos de prevenção à manipulação de mercado.
A agência também sinalizou abertura para que empresas reguladas mantenham registros obrigatórios em blockchains públicas e invistam recursos de clientes em determinadas aplicações tokenizadas já permitidas. As orientações técnicas, porém, não equivalem a uma regulamentação definitiva, e a ausência de uma lei aprovada mantém o processo sujeito a avanços graduais.
O desenvolvimento regulatório pode contribuir para reduzir a incerteza sobre a atuação das empresas do setor nos Estados Unidos, mas seus efeitos não devem ser confundidos com um catalisador imediato para a valorização do Bitcoin. No curto prazo, os fluxos financeiros e as condições macroeconômicas parecem ter influência mais direta sobre as cotações.
O relatório também aponta aumento da movimentação entre detentores de longo prazo. O indicador de variação de posição em 30 dias permaneceu negativo e se aproximou de 150 mil BTC, ante uma faixa de 80 mil a 95 mil BTC no fim de setembro e no início de outubro. O dado revela uma intensificação das mudanças de posição nesse grupo, mas, isoladamente, não permite concluir que todos esses investidores estejam vendendo seus ativos.
Para as próximas semanas, a avaliação do Inter é de que o mercado continuará sensível à inflação americana, à evolução dos fluxos dos ETFs e aos desdobramentos geopolíticos. Uma combinação de CPI mais brando, retomada das entradas nos fundos e avanço nas negociações entre Washington e Teerã poderia favorecer uma recuperação. No sentido contrário, novas retiradas de capital, inflação persistente e petróleo em alta aumentariam a pressão sobre o Bitcoin.
O principal sinal de atenção, portanto, não é apenas a queda da criptomoeda em relação ao início da semana, mas a convergência entre menor apetite por risco, saída de recursos dos ETFs e incerteza sobre os juros. Até que esses fatores mostrem uma inflexão consistente, uma recuperação das cotações poderá enfrentar dificuldades para se sustentar.






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