Quando uma guerra no Oriente Médio mexe com o preço do combustível no mundo inteiro, a pergunta que os países importadores passam a fazer é simples: de onde mais podemos comprar? Para a Wood Mackenzie, parte da resposta está num lugar que raramente ocupa as manchetes, o Mar Cáspio. Em artigo, o presidente e analista-chefe da consultoria, Simon Flowers, e uma equipe de especialistas defendem que a região tem recursos, estabilidade e oportunidade para ganhar peso como fornecedora confiável de energia. O obstáculo, porém, é de infraestrutura: falta chegar ao mundo.
A tese: estabilidade e recursos, mas sem saída para o mar
A análise parte de uma constatação. Com a guerra no Irã, os países importadores querem diversificar suas fontes, e as petroleiras, privadas e estatais, estão atrás de novos investimentos. Nesse cenário, quem tem recursos e estabilidade política larga na frente. A consultoria cita Azerbaijão, Cazaquistão e Turcomenistão como candidatos geopoliticamente estáveis, com chance de colaborar para elevar o papel da região no abastecimento global.
O problema é que o Cáspio não tem saída direta para o oceano. Sem canos que atravessem o mar e levem a produção até os grandes mercados, o potencial fica parado.
Azerbaijão: quem já fez o dever de casa
O Azerbaijão está à frente dos vizinhos. É um produtor relevante em escala global e, principalmente, já investiu na infraestrutura necessária para exportar. A indústria local tem mais de cem anos, mas ganhou projeção mundial no início deste século, com os gigantes campos marítimos ACG e Shah Deniz, desenvolvidos pela BP.
Esses projetos levaram a produção total a 1,2 milhão de barris de óleo equivalente por dia em 2010, com 80% de petróleo. O patamar se mantém desde então e, nas projeções da Wood Mackenzie, deve continuar até o fim da década de 2030, com ajuda da fase 2 do projeto de gás Absheron, da TotalEnergies, que teve a decisão final de investimento aprovada no mês passado. O gás virou a história de crescimento do país e deve representar cerca de 60% da produção em 2026.
A estatal Socar participa de todos os projetos e o governo busca atrair mais capital, tanto no mar quanto em terra, onde a ExxonMobil tem licença para explorar uma grande área de xisto ainda não comprovada.
O país também construiu o chamado Corredor Sul. O oleoduto BTC, de 1,2 milhão de barris por dia, aberto em 2005, leva petróleo, sobretudo azerbaijano, ao porto mediterrâneo de Ceyhan, na Turquia. Mesmo recebendo cargas vindas de outros países do Cáspio, ele opera bem abaixo da capacidade. Já os gasodutos TANAP (2018) e TAP (2020) cruzam Geórgia e Turquia e chegam à rede europeia via Grécia e Itália.
Cazaquistão e Turcomenistão: muito recurso, pouca porta de saída
O contraste está nos vizinhos. O Cazaquistão produz 2,2 milhões de barris por dia de líquidos, e mais de 1,5 milhão sai pelo oleoduto CPC até um porto perto de Novorossiysk, na costa russa do Mar Negro. A dependência custa caro: os fluxos têm sido seriamente prejudicados por ataques ao duto e às instalações portuárias, ligados à guerra entre Rússia e Ucrânia. A próxima fase do gigante campo de Kashagan poderia elevar as exportações em mais de 200 mil barris por dia, se for aprovada. Chevron, ExxonMobil, Eni, Shell, TotalEnergies, CNPC, Lukoil e Inpex estão entre as petroleiras com presença no país.
O Turcomenistão tem um problema de outra natureza. Abriga Galkynysh, o segundo maior campo de gás do mundo, e as exportações respondem por até um terço do PIB. Mas toda a venda, de 34 bilhões de metros cúbicos por ano, vai para um único comprador, a China, e fica bem abaixo de metade do que o Catar exportou do seu campo North em 2025. Conversas sobre vender mais não avançaram. Sem rotas alternativas, as reservas seguem longe de ser plenamente aproveitadas.
A proposta: o “Corredor do Meio”
A solução apontada pelos analistas é, nas palavras do texto, óbvia: construir oleodutos e gasodutos submarinos que atravessem o Cáspio, ligando o petróleo cazaque e o gás turcomeno às rotas já existentes via Azerbaijão, até o Mediterrâneo e a rede europeia. Fechar esses elos completaria o Corredor do Meio, descrito como uma nova Rota da Seda para as moléculas de energia.
Os ganhos seriam compartilhados. Cazaquistão e Turcomenistão ganhariam opções de exportação e incentivo para acelerar investimentos. Os países importadores teriam mais oferta e segurança. O Azerbaijão arrecadaria tarifas e reforçaria seu papel de elo estratégico ao longo do trajeto.
Ainda assim, o texto é cauteloso: a execução está longe de ser simples. Os autores listam três perguntas sem resposta. Como reunir o apoio de vários governos com interesses próprios, incluindo não só os três produtores, mas também Rússia e China? A Europa quer se comprometer com contratos de gás de longo prazo? E quem paga a conta de obras transfronteiriças tão grandes, os governos ou a indústria?
O tema dominou a conferência KIOGE, em Almaty, no Cazaquistão, na semana anterior. Também foi muito debatida a ideia de um “Corredor Verde” leste-oeste, com uma interligação elétrica pelo Cáspio para levar energia renovável ao Azerbaijão.
Além do petróleo: minerais críticos
O artigo lembra ainda que os países da Ásia Central são ricos em minerais críticos, e os esforços para atrair investimento estrangeiro estão se intensificando, à medida que as nações buscam desenvolver mineração e processamento. A China é o mercado óbvio, mas o interesse do Ocidente também disparou, diante do reconhecimento da importância estratégica desses recursos.
Leitura final
O recado da Wood Mackenzie é que o Cáspio reúne o que o mundo procura hoje: recursos abundantes em países vistos como estáveis. O que falta é conectar a produção a quem quer comprar, e isso depende menos de geologia e mais de política, dinheiro e coordenação entre vizinhos com interesses diferentes. Se as peças se encaixarem, o Corredor do Meio pode mudar o mapa do abastecimento. Se não, o potencial continuará preso no meio do mapa.
Este texto é baseado em artigo de opinião de Simon Flowers, Malcolm Forbes-Cable, Ian Simm e Craig Saunders, publicado pela Wood Mackenzie. As projeções são da consultoria e estão sujeitas a mudanças.





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