Durante décadas, a Totvs foi sinônimo de software de gestão para empresas brasileiras. Agora, a companhia quer ser lembrada por outra coisa: ser a porta de entrada da inteligência artificial para o pequeno e médio negócio. Foi essa a mensagem central do Investor Day 2026, e foi também o que chamou a atenção da Ativa Investimentos, que manteve recomendação de compra para as ações (TOTS3) e preço-alvo de R$ 50,00, o que representa potencial de alta de 18,5% sobre a cotação de R$ 42,20.
Um mercado que ainda engatinha
O ponto de partida da tese é um retrato de imaturidade. Segundo estudo apresentado pela própria Totvs, 80% das empresas brasileiras já usam ou testam IA, mas só 7% incorporaram a tecnologia à estratégia do negócio. Outros 40% ainda tocam iniciativas sem coordenação entre as áreas.
Para a Totvs, esse descompasso é exatamente a brecha. A empresa aposta que sua expertise, os dados proprietários que reúne e o domínio das aplicações que já roda dentro dos clientes são diferenciais para ocupar o espaço. A Ativa concorda que há um mercado endereçável relevante, mas faz uma ressalva importante: justamente porque o mercado está no começo, a velocidade de adoção e o prazo para capturar essa oportunidade seguem incertos.
Pagar por tarefa, não por token
O anúncio que mais ganhou destaque foi a oficialização do TaaS (Tasks as a Service). Nesse modelo, os agentes de IA são cobrados pelas tarefas que concluem, e não pela complexidade técnica do consumo. O cliente recebe uma franquia mensal em T-Coins, créditos convertidos em reais, e paga à parte por eventuais excedentes.
Na avaliação dos analistas, a escolha é acertada por tornar o custo da IA mais tangível. Em vez de lidar com a métrica de tokens, que dificilmente faz sentido para o dono de uma pequena empresa, o cliente enxerga o preço de cada tarefa realizada. A Ativa também vê um benefício para a própria Totvs: à medida que o uso e a produtividade dos agentes crescerem, a monetização tende a acompanhar.
Sem casar com nenhum modelo
Outro movimento elogiado é a postura agnóstica diante dos modelos de linguagem. A Totvs não se prende a um único fornecedor, e pode recorrer a ChatGPT, Claude, Gemini e outros, conforme a preferência do cliente e a melhor relação entre custo e desempenho para cada aplicação.
Num setor em que preços e eficiência mudam o tempo todo, a flexibilidade funciona como uma espécie de seguro. A companhia não fica refém das decisões comerciais de nenhuma big tech de IA.
De software a plataforma
A empresa também pretende ir além do próprio ecossistema. A ideia é permitir que cargas de trabalho que não são da Totvs rodem em sua infraestrutura e oferecer capacidades de IA para consumo dos clientes. É uma tentativa de se posicionar não só como provedora de software, mas como plataforma de infraestrutura e consumo de IA voltada ao pequeno e médio empresário.
Conta digital dentro do ERP
No front financeiro, a Totvs destacou o lançamento da Conta+, conta digital integrada e conciliada diretamente ao sistema de gestão. A companhia também apontou como diferencial da Techfin um ganho de 9 pontos percentuais no KS, indicador usado para medir a capacidade de separar bons e maus pagadores, resultado que atribui à maior proximidade e disponibilidade de dados dos clientes.
A Ativa enxerga o lançamento com bons olhos, por integrar a jornada financeira ao software de gestão e ampliar o potencial de captura de valor da base. Mas mantém o pé no freio: a vertical segue tratada como “optionality”, ou seja, um potencial adicional, e não o motor da tese, por ter menor representatividade e maior exposição ao ciclo econômico do que o negócio de software.
O alerta: e se o cliente nem abrir o sistema?
O trecho mais provocativo do relatório está no ponto de atenção. Ao abrir e integrar seus dados a modelos externos, a Totvs reconhece que já existe um espectro de usuários operando diretamente via LLM. Isso levanta uma pergunta incômoda: se o usuário puder fazer tudo conversando com uma IA externa, quanto ele continuará dependendo das telas e soluções da companhia?
A Ativa não trata isso como ameaça imediata. Avalia que ainda é cedo para saber em que medida essa evolução pode reduzir, no longo prazo, a dependência do usuário final das interfaces da empresa. Mas o recado está dado: a mesma abertura que amplia o alcance da Totvs pode, no futuro, diluir seu protagonismo.
O que dizem os números
Na avaliação da corretora, a execução até aqui reforça o potencial da avenida, com os habilitadores de IA já ganhando relevância nos resultados. O mercado, porém, parece ter antecipado parte do entusiasmo. As ações acumulam alta de 29,0% em 30 dias, mas variação de -0,7% em 12 meses, enquanto o Ibovespa avançou 46,1% no mesmo período. A cotação está longe da máxima de R$ 48,40 nos últimos 12 meses.
Os múltiplos mostram o desconto em relação ao histórico: o papel negocia a 20,2 vezes o lucro (P/L), contra média de 34,3 vezes, e a 12,2 vezes o EV/EBITDA, ante média de 16,6 vezes. O valor de mercado da companhia é de R$ 25,5 bilhões.
Leitura final
O Investor Day deixou a impressão de uma empresa que tenta transformar uma posição histórica, a de dona do sistema que roda o dia a dia de milhares de negócios, em vantagem na corrida da inteligência artificial. A Ativa gosta da direção, destacando a combinação de flexibilidade, novas formas de monetização e uma posição privilegiada junto à base de clientes. O que ninguém consegue dizer ainda é quão grande, e quão rápida, será essa oportunidade.
Este texto é baseado em relatório da Ativa Investimentos e tem caráter informativo. Não constitui recomendação de investimento.






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